60 anos da Administração no Brasil: as mãos invisíveis que movem o país

Em 2025, o Brasil celebra um marco histórico para a gestão organizacional: os 60 anos da regulamentação da profissão de Administrador no país. Esta data especial, conhecida como o Jubileu de Diamante da Administração, representa muito mais do que uma simples comemoração – é o reconhecimento de uma trajetória que transformou desafios em aprendizados e oportunidades em resultados concretos para o desenvolvimento nacional.

A promulgação da Lei nº 4.769, em 9 de setembro de 1965, durante o governo militar, marcou o nascimento oficial da profissão de Administrador no Brasil. Desde então, a Administração tornou-se um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento das organizações, empresas e instituições públicas em todo território nacional, consolidando-se como essencial para o progresso econômico, social e organizacional da nação.

As raízes da Administração Brasileira

Os primórdios do ensino

A história da Administração no Brasil começou bem antes de sua regulamentação oficial. O contexto para a formação do Administrador ganhou contornos mais claros na década de 1940, quando se acentuou a necessidade de mão-de-obra qualificada e, consequentemente, da profissionalização do ensino de Administração.

A Era Vargas foi fundamental para estabelecer as bases da administração moderna no país. Em 1938, foi criado o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), que buscou conferir certa profissionalização à gestão pública e formar uma burocracia especializada necessária para o desenvolvimento nacional. Este órgão precedeu iniciativas importantes como a Comissão Permanente de Padronização (1930), a Comissão Central de Compras (1931) e o Conselho Federal do Serviço Público Civil (1936), todos visando emprestar caráter mais racional à administração pública brasileira.

As primeiras escolas

O ensino superior de Administração no Brasil teve início na década de 1950, marcando uma fase crucial para a profissionalização da área. Em 1952, a Fundação Getulio Vargas criou no Rio de Janeiro a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), tornando-se a primeira escola da América Latina a contemplar a Administração Pública. No mesmo ano, a Universidade Federal de Minas Gerais também iniciou seu curso superior em Administração Pública.

Dois anos depois, em 1954, a FGV instituiu a Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), contribuindo significativamente para a formação de novos administradores no Brasil. A primeira turma da EAESP se formou em 1959, surgindo o primeiro currículo especializado em Administração, com o objetivo de formar especialistas em técnicas modernas de gestão. Este currículo tornou-se uma referência para outros cursos que surgiram no país.

A Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA) também desempenhou papel importante nesta trajetória. Criada em 1946 com o nome de Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas (FCEA), passou a oferecer os cursos de Administração de Empresas e de Administração Pública em 1963.

A consolidação da profissão

O sistema CFA/CRAs

Com a regulamentação da profissão em 1965, tornou-se necessário criar um órgão normativo, consultivo, orientador e disciplinador do exercício das atividades. Para este papel, foi instituído o Conselho Federal de Administração (CFA), sediado na capital federal, responsável por controlar e fiscalizar as atividades financeiras e administrativas do Sistema CFA/CRAs.

O Sistema CFA/CRAs, integrado pelo CFA e pelos 27 Conselhos Regionais de Administração (CRAs) sediados em todos os estados da Federação, tem como missão promover a Ciência da Administração valorizando as competências profissionais, a sustentabilidade das organizações e o desenvolvimento do país. Este sistema integrado é responsável pelo bom andamento da profissão no país, executando diretrizes, fiscalizando o exercício profissional, organizando registros e julgando infrações.

Expansão do ensino superior

A partir da década de 1960, a FGV passou a ministrar cursos de Pós-Graduação nas áreas de Economia, Administração Pública e de Empresas. Este movimento impulsionou o ensino de graduação em Administração em outras instituições de ensino superior, como na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1951), na Universidade Federal de Minas Gerais (1952), na Universidade Federal da Bahia (1959) e na Universidade de São Paulo (1964).

As décadas de 1960 e 1970, correspondentes ao chamado “Milagre Brasileiro”, foram marcadas pelo forte crescimento econômico durante o Regime Militar. O setor industrial brasileiro se ampliou e se fortaleceu, tornando premente a necessidade de profissionais qualificados.

Conquistas e números da profissão

O crescimento exponencial

Atualmente, a Administração consolida-se como o segmento mais procurado pelos estudantes no ensino superior brasileiro. Segundo o Censo da Educação Superior 2022, a área de Administração, que engloba os cursos de bacharelado em Administração e Administração Pública e os tecnológicos em Gestão, registra mais de 1,4 milhão de estudantes matriculados. Deste total, quase 800 mil estudantes optaram pelas formações tecnológicas, enquanto mais de 655 mil graduandos escolheram os bacharelados.

O Ministério da Educação (MEC) registra atualmente 2.295 cursos de bacharelado em Administração oferecidos em todo o país, resultando em 966.316 vagas. Esta expansão reflete não apenas a demanda do mercado, mas também o reconhecimento da importância da profissão para o desenvolvimento nacional.

Participação política e social

A profissão de Administração também demonstra sua relevância na participação política do país. Nas eleições municipais de 2024, foram eleitos 2.445 administradores registrados e ativos nos Conselhos Regionais de Administração. Destes, 61 foram eleitos prefeitos, 46 vice-prefeitos e 2.338 vereadores, demonstrando a confiança da população nos profissionais de gestão para conduzir os destinos dos municípios brasileiros.

Valorização profissional

Pesquisa recente conduzida pelo Conselho Federal de Administração revelou que a maioria dos administradores registrados no CRA considera o registro essencial para o exercício da profissão. Em 2023, 33,10% dos entrevistados citaram a importância do registro profissional como o principal motivo para estarem inscritos no CRA. Adicionalmente, 29,73% dos respondentes afirmaram que o interesse em exercer a profissão de forma regulamentada foi um fator decisivo para a inscrição.

Desafios contemporâneos

Transformação digital

O século XXI trouxe desafios inéditos para os administradores. A transformação digital emergiu como uma das principais demandas, exigindo dos profissionais uma constante atualização de competências. Estima-se que, até 2030, aproximadamente 37% das habilidades dos trabalhadores brasileiros precisarão ser atualizadas devido às novas tecnologias, e cerca de 58% das empresas no Brasil planejam recrutar profissionais com novas habilidades nos próximos cinco anos.

A administração pública também enfrenta a necessidade urgente de modernização tecnológica. A defasagem tecnológica na gestão pública tem efeitos significativos na qualidade dos serviços prestados aos cidadãos, gerando demora na resposta e limitando a eficiência dos processos.

Competências do futuro

O administrador moderno precisa ir além das habilidades tradicionais de gestão. Com o avanço tecnológico, torna-se essencial compreender novas ferramentas e tendências para liderar mudanças organizacionais de forma estratégica. As habilidades mais valorizadas até 2025 incluem pensamento analítico (69%), resiliência (67%), liderança (61%) e criatividade (57%).

Desafios estruturais

A administração pública brasileira enfrenta desafios estruturais intensos, dado o contexto de desigualdades regionais, burocracia extensa e recursos limitados, exigindo uma gestão cada vez mais adaptativa e inovadora. O avanço das tecnologias digitais e o fortalecimento da governança eletrônica trazem tanto oportunidades quanto desafios para a modernização dos processos e a melhoria da interação entre Estado e sociedade.

O futuro da profissão

Áreas em Expansão

O Fórum Econômico Mundial prevê a criação de 170 milhões de novos empregos até 2030, principalmente em Big Data, cibersegurança e energia renovável. Para os administradores, diversas carreiras prometem grande crescimento, incluindo Gestão de Projetos Tecnológicos, Consultoria em Transformação Digital, Gestão da Cadeia de Suprimentos, Gestão de Dados e Analytics, Desenvolvimento de Negócios em IA, Gestão do Varejo e Serviços, e Política e Gestão Pública.

Sustentabilidade e responsabilidade social

Empresas cada vez mais buscam administradores especializados em gestão sustentável, reforçando a tendência global de responsabilidade ambiental e social. A sustentabilidade tornou-se uma competência essencial, exigindo que os profissionais compreendam não apenas os aspectos econômicos, mas também os impactos sociais e ambientais de suas decisões.

Governança digital

A governança digital emerge como um caminho fundamental para a modernização da administração pública brasileira. O uso das tecnologias da informação e da comunicação visa atender três pilares essenciais: prestação de melhores serviços, maior acesso à informação e maior participação social em todo o ciclo das políticas públicas.

Perspectivas e reflexões

O papel transformador

Ao longo dessas seis décadas, a Administração construiu uma história rica em conquistas, transformando desafios em aprendizados e oportunidades em resultados. Profissionais de todas as regiões do país contribuíram para que a gestão eficiente e estratégica se tornasse um pilar de sucesso para empresas, governos e organizações.

Como destaca o professor Antônio de Araújo Freitas Júnior, pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-graduação da Fundação Getulio Vargas: “Não dá para ser isonômico e tratar os diferentes como se eles fossem iguais”. Esta reflexão ilustra a necessidade de reconhecer as diferenças regionais e contextuais na formação e atuação dos administradores.

O compromisso com a excelência

O futuro da profissão de Administração é promissor, mas exige um profissional cada vez mais preparado para lidar com os desafios de um mercado em constante evolução. Mais do que administrar recursos e processos, os administradores do futuro precisarão ser estrategistas, inovadores e líderes capazes de transformar organizações e impactar positivamente a sociedade.


A trajetória de 60 anos da profissão no Brasil demonstra que a Administração se consolidou como um agente transformador e indispensável para o progresso nacional.

Desde a criação das primeiras escolas na década de 1950 até a atual formação de mais de 1,4 milhão de estudantes, a profissão evoluiu constantemente, adaptando-se às demandas de cada época. Os desafios contemporâneos – transformação digital, sustentabilidade, governança – são oportunidades para que os administradores continuem demonstrando sua capacidade de inovação e liderança.

O Sistema CFA/CRAs, protagonista desta comemoração histórica, continua organizando ações que ressoam em todos os cantos do Brasil, com o objetivo de valorizar a profissão e mostrar à sociedade a relevância e o impacto que a Administração tem em suas vidas. O compromisso permanece firme: reafirmar a Administração como essencial para a construção de um país mais eficiente, competitivo e justo.

Que venham mais 60 anos de sucesso, realizações e contribuições para o desenvolvimento do Brasil. A Administração brasileira, forjada na experiência e preparada para o futuro, continuará sendo protagonista na construção de uma nação próspera e sustentável.

Fontes

A reportagem foi elaborada a partir de dados oficiais e históricos extraídos de fontes reconhecidas, como o Conselho Federal de Administração (CFA), o Ministério da Educação (MEC) e o Censo da Educação Superior, além de informações de instituições pioneiras no ensino da Administração no Brasil, como a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Universidade de São Paulo (USP). Foram consultados estudos, pesquisas e levantamentos estatísticos recentes sobre o perfil dos profissionais, desafios contemporâneos da área, tendências de mercado e participação política dos administradores, bem como análises de especialistas e registros históricos sobre a evolução da profissão desde a sua regulamentação em 1965. Todas as informações e declarações citadas são verídicas e respaldadas por fontes públicas e institucionais confiáveis

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