Em uma manhã de março de 2025, Ellen Martinelli, primeira-dama de Jundiaí, sobe ao palco do auditório do Paço Municipal para falar sobre sororidade nos negócios. Na plateia, 55 mulheres ouvem atentamente enquanto ela defende que “não estamos aqui para ser concorrentes, podemos unir forças e juntas ir muito além”. Esta cena ilustra uma transformação silenciosa, mas poderosa, que vem acontecendo na cidade: Jundiaí se consolidou como um polo de referência no apoio ao empreendedorismo feminino, criando um ambiente onde mulheres não apenas empreendem, mas se fortalecem mutuamente para crescer juntas.

O fenômeno dos números: quando os dados revelam uma revolução silenciosa
Os números não mentem: elas estão assumindo o protagonismo econômico em Jundiaí. De acordo com dados do Sebrae-SP, 48,3% dos Microempreendedores Individuais (MEIs) da cidade são mulheres. Mais impressionante ainda: na região de Jundiaí, 53,38% de todos os atendimentos realizados pelo Sebrae em 2024 foram para pessoas físicas do sexo feminino. Estes dados refletem uma tendência nacional, mas ganham contornos especiais na cidade, onde as políticas públicas têm sido desenhadas especificamente para amplificar essa participação feminina.
A analista de negócios do Sebrae-SP, Alessandra Consoline, observa uma mudança qualitativa no perfil das mulheres que procuram orientação empresarial.
“Percebemos cada vez mais a presença de mulheres buscando nosso atendimento e nossas orientações. Acredito que muito se deve à vontade delas de se tornarem protagonistas da própria vida”.
Esta busca por protagonismo não é apenas individual – ela reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho brasileiro, onde as mulheres atingiram um recorde histórico de 48,1% de ocupação.
O crescimento do empreendedorismo feminino em Jundiaí também se manifesta em eventos específicos. A Feira do Empreendedor, Negócios e Serviços (FENS) da cidade conta atualmente com 250 expositores, sendo mais de 50% mulheres. Este percentual demonstra não apenas a presença feminina quantitativa, mas sua qualidade organizacional e capacidade de estruturar negócios sustentáveis.
A arquitetura do apoio: como Jundiaí construiu seu ecossistema de suporte
O sucesso do empreendedorismo feminino em Jundiaí não é acidental. A cidade desenvolveu uma arquitetura institucional robusta que oferece suporte desde a concepção da ideia até a consolidação do negócio. O Espaço Jundiaí Empreendedora, localizado no Maxi Shopping, funciona como o epicentro desta rede de apoio. Com 400 metros quadrados, o espaço oferece desde orientação empresarial até ambiente para networking, criando um ecossistema onde empreendedoras podem se conectar, aprender e crescer juntas.

A programação específica para mulheres demonstra a sofisticação desta estratégia. A Semana do Empreendedorismo Feminino, realizada anualmente em novembro, oferece desde palestras sobre “Atitudes Certeiras” até rodadas de negócios exclusivas. Mas o apoio não se limita a eventos pontuais. O programa Jundiaí Empreendedora mantém uma linha de crédito especial para mulheres, destinada à compra de máquinas, equipamentos e matéria-prima, em parceria com o Banco do Povo.
Esta abordagem sistemática se estende também à capacitação técnica. O Fundo Social de Solidariedade desenvolveu o programa “Empoderadas”, que oferece cursos gratuitos de qualificação e capacitação especificamente para mulheres empreendedoras. Ellen Martinelli destaca a importância desta iniciativa:
“Com o programa Empoderadas, temos a possibilidade de ajudar essas mulheres empreendedoras com os cursos de qualificação e capacitação gratuitas”.
Histórias reais: quando os números ganham rosto e nome
Por trás das estatísticas estão histórias reais de transformação. Bruna Félix de Oliveira Lazarini exemplifica esta trajetória. Hoje diretora de Planejamento, Gestão e Finanças da Unidade de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura, ela mantém há sete anos uma loja virtual de roupas femininas. Sua história começou com uma necessidade simples:
“Na época, comprei um blazer para trabalhar. Por ser uma peça ‘novidade’, minhas colegas começaram a perguntar onde eu havia comprado. Então respondi que comprei porque estava interessada em revender”.
A pandemia de COVID-19 acelerou este movimento empreendedor feminino. Bruna observa que “muitas pessoas perderam o emprego e outras tiveram suas rendas reduzidas. Então, as mulheres principalmente, sentiram aquela necessidade de completarem a renda familiar”. Esta observação é fundamental para entender que o empreendedorismo feminino em Jundiaí não é apenas uma questão de oportunidade, mas também de necessidade econômica e resiliência social.

A startup Diors, incubada no Campus Jundiaí, representa outro modelo de sucesso feminino na inovação tecnológica. Atuando na área da saúde com foco na melhoria da qualidade do sono, a empresa conquistou investimento do Catalisa ICT e se prepara para submeter projetos ao PIPE-Fapesp-Sebrae. Este caso demonstra que o apoio ao empreendedorismo feminino em Jundiaí transcende os setores tradicionais, alcançando áreas de alta tecnologia e inovação.
O poder das parcerias
O sucesso do empreendedorismo feminino em Jundiaí resulta de uma estratégia de parcerias bem orquestrada. O Sebrae-SP desempenha papel central através do “Sebrae Delas”, que promove eventos, treinamentos e oportunidades específicas para fortalecer a cultura empreendedora feminina. A parceria vai além do oferecimento de cursos: inclui o lançamento de iniciativas como o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios e a primeira edição do Empretec exclusivamente feminino em Jundiaí.
A integração entre poder público e iniciativa privada se materializa em eventos como o “Todas por Elas”, que reuniu 55 mulheres no Paço Municipal. Este tipo de evento não apenas oferece capacitação técnica, mas cria uma rede de relacionamentos que se estende muito além do momento presencial. Como destaca Eloísa Xavier Couto, analista do Sebrae-SP: “Nosso objetivo é expandir os horizontes dessas mulheres e fortalecê-las no mercado”.
A Unidade de Gestão de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (UGDECT) coordena esta rede de parcerias, garantindo que as ações sejam complementares e não concorrentes. Entre fevereiro e março de 2025, mais de 700 pessoas participaram de cursos, eventos e feiras voltadas ao desenvolvimento de pequenos e médios negócios, demonstrando a escala e o impacto destas iniciativas.
O impacto social do Empreendedorismo Feminino
O empreendedorismo feminino em Jundiaí transcende a dimensão econômica, gerando impactos sociais profundos. A parceria entre o Jundiaí Empreendedora e o Fundo Social de Solidariedade exemplifica esta abordagem integrada. Palestras sobre alavancagem comercial são oferecidas em troca de doações de leite, criando um ciclo virtuoso onde o desenvolvimento empresarial alimenta também a solidariedade social.
Esta dimensão social se materializa também nas ações de inclusão produtiva. O CRAS Noroeste realizou sua primeira ação de “Inclusão Produtiva”, atendendo diversos públicos, incluindo pessoas com deficiência (PCD). Sete pessoas foram encaminhadas para entrevistas, demonstrando que o apoio ao empreendedorismo se estende também aos grupos mais vulneráveis da sociedade.
Luciane Mosca, gestora da UGADS, ressalta que
“essa ação permite que os moradores tenham mais acessibilidade ao mercado de trabalho, principalmente aqueles que enfrentam dificuldades de deslocamento”.
Esta observação é crucial para entender que o empreendedorismo feminino em Jundiaí não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento social inclusivo.
Inovação e Tecnologia
Jundiaí não se limitou ao empreendedorismo tradicional. A cidade desenvolveu um ecossistema de inovação que inclui especificamente as mulheres empreendedoras. O Campus Jundiaí abriga 20 startups em três ambientes de inovação distintos: Ambiente de Inovação da FMJ (soluções em saúde), Espaço Jundiaí Empreendedora (soluções tecnológicas para comércio, indústria e serviços) e Ambiente de Inovação da DAE (eficiência energética e meio ambiente).
A Maratona de Inovação promovida em maio de 2025 exemplifica como a cidade integra arte, inovação e sustentabilidade para promover o pensamento criativo. Com patrocínio da Siemens Energy e realização em parceria com o Ministério da Cultura, o evento demonstra que Jundiaí conseguiu atrair investimento privado para suas iniciativas de inovação.
Humberto Cereser, gestor de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, observa que
“a cidade tem um ecossistema inovador e colaborativo. Projetos como este, com apoio da iniciativa privada e integração com políticas públicas, demonstram como a inovação pode impactar positivamente a vida das pessoas”.
Esta visão sistêmica é fundamental para entender por que Jundiaí conseguiu se destacar no cenário nacional do empreendedorismo.
O poder do networking estratégico
Uma das inovações mais interessantes de Jundiaí é o “Conecta Networking“, evento mensal promovido no Espaço Jundiaí Empreendedora. O objetivo é criar um ambiente colaborativo onde empresários podem apresentar produtos e serviços, receber feedbacks e realizar conexões estratégicas. O prefeito Gustavo Martinelli destaca que “a Prefeitura de Jundiaí tem investido fortemente no apoio ao empreendedorismo e na geração de oportunidades. O Conecta Networking é mais uma ação inovadora para que os empreendedores ampliem suas redes de contato”.

Esta estratégia de networking vai além do simples encontro de empresários. Os participantes devem primeiro completar um curso online do Sebrae sobre “como fazer pitch”, garantindo que cheguem ao evento preparados para apresentar seus negócios de forma profissional. Esta exigência demonstra o nível de sofisticação das iniciativas de Jundiaí, que não se limitam a facilitar encontros, mas preparam os empreendedores para aproveitar ao máximo estas oportunidades.
O sucesso desta abordagem se reflete no reconhecimento externo. Douglas Speck, presidente executivo do Núcleo das Empresas Juniores da Região de Campinas, observa que
“Jundiaí é município com grande potencial para o desenvolvimento do empreendedorismo. As instituições com a prefeitura têm feito um ótimo trabalho no apoio às empresas juniores”.
Um modelo para o Brasil
Jundiaí demonstra que é possível criar um ecossistema de apoio ao empreendedorismo feminino que vai muito além de políticas assistencialistas. A cidade desenvolveu uma abordagem sistêmica que combina infraestrutura física, capacitação técnica, suporte financeiro, networking estratégico e inovação tecnológica. O resultado é um ambiente onde mulheres não apenas empreendem, mas se fortalecem mutuamente para alcançar resultados sustentáveis.
O modelo de Jundiaí oferece lições valiosas para outras cidades brasileiras. Primeiro, a importância de integrar diferentes esferas de governo e iniciativa privada em torno de objetivos comuns. Segundo, a necessidade de ir além de eventos pontuais, criando uma infraestrutura permanente de apoio. Terceiro, o valor de combinar apoio técnico com formação de redes de relacionamento.
Mais importante ainda, Jundiaí demonstra que o empreendedorismo feminino não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia inteligente de desenvolvimento econômico. Quando as mulheres empreendem, toda a sociedade se beneficia através de maior diversidade de produtos e serviços, geração de empregos e fortalecimento do tecido social local. Em um país onde as mulheres representam mais da metade da população, ignorar este potencial não é apenas injusto – é economicamente irracional.

