Rito — não nascimento: o significado de 14 de dezembro para Jundiaí

Tendo o jundiaiense acabado de atravessar mais um “aniversário” da cidade — desta vez anunciado como a celebração de 369 anos de Jundiaí —, creio valer a pena promover uma correção em escala mais ampla. Trata-se de um esforço que venho realizando há cerca de dez anos. Falta rigor histórico nesse debate há gerações — e, ao que tudo indica, até mesmo quem deveria dar o exemplo deixou de consultar os melhores livros e documentos já produzidos e publicados pelo próprio museu da cidade.

Em termos conceituais, não há problema algum em classificar o 14 de dezembro sob o rótulo de “aniversário”. O termo designa, afinal, a repetição anual ou cíclica de um marco — que pode corresponder a um nascimento, a uma fundação, a uma independência, a uma conquista ou a outra transformação relevante. O problema surge quando o significado histórico específico dessa data deixa de ser transmitido corretamente, como ocorreu no caso de Jundiaí. Lembremos, inclusive, que o dia 14/12 chegou a ser feriado municipal. A confusão atual não é casual: ela é fruto de uma longa interrupção na transmissão histórica.

Até porque, se o 14 de dezembro fosse de fato o nascimento de Jundiaí, o que fazer com as outras duas datas associadas ao mesmo “aniversário”, tal como aparecem no calendário municipal — agosto e março, todos os anos? A resposta é direta: Jundiaí não nasceu em 14 de dezembro e, por isso, não tem 369 anos de vida. Da mesma forma, a cidade tampouco nasceu em 28 de março, como muitos ainda confundem.

Se houve algo que possa ser comparado a um nascimento nesse processo, o mês apropriado — e, de fato, o mais decisivo do calendário local — é agosto. Foi nesse mês, há exatos 386 anos, em 1639, que chegou à região um grupo de bandeirantes com cerca de 300 “almas”, a maioria delas escravizada. Fruto de uma bandeirada — articulada, segundo a tradição, por Raposo Tavares e liderada por Rafael de Oliveira (filho) —, foi assim que a futura cidade de Jundiaí começou: com assentamentos organizados em algum ponto da atual Serra do Japi, avançando em direção ao centro.

Uma “freguezia”: eis o nome dessa pequena organização colonial que aqui se estabeleceu à custa do embate com povos indígenas e da travessia de vasta mata fechada — o então desconhecido “sertão de Jundiay”. Essa freguesia desenvolveu-se entre 15 de agosto de 1639 e — repare-se na data — 14 de dezembro de 1656, quando a Jundiay nascente foi integrada a um tecido social e burocrático mais amplo. O preço dessa integração foi sua conversão institucional: deixava de ser freguesia para assumir a categoria de “Villa”, batizada “Formosa de Nossa Senhora do Desterro de Jundiahy.”

Portanto, o aniversário sobre o qual ouvimos falar recentemente não se refere ao nascimento de Jundiaí, mas à obtenção de seu primeiro status social, burocrático e cívico. A situação é análoga à de uma criança que acaba de nascer e, em seguida, é inserida no âmbito social por meio de um registro. A diferença crucial é que, nesse caso, a “criança” já tinha 17 longos anos de existência. Somente duzentos anos depois, em 28 de março de 1865, Jundiaí passaria por um novo salto institucional: de Villa, ascenderia à condição de cidade propriamente dita.

Para orientar o leitor, organizo abaixo um resumo cronológico:

a) 15 de agosto de 1639 — chegada do primeiro grupo de bandeirantes;
b) 14 de dezembro de 1656 — conversão da freguezia de Jundiay em Villa (mudança de status socio-burocrático);
c) 28 de março de 1865 — conversão da Villa Formosa N. S. do Desterro de Jundiahy na atual cidade de Jundiaí.


Artigo por

André Schüller, psicanalista e biógrafo. Lançou recentemente, em Jundiaí, Como tudo (finalmente) começou — livro que reúne as histórias documentadas dos pais e do mentor de Sigmund Freud. Jundiaiense de coração, é neto de Guilherme Schüller, maquinista homenageado pela cidade por sua atuação na Revolução Constitucionalista de 1932.

O melhor da notícia está no nosso canal no WhatsApp

Publicidade

Continue lendo