Harmonia: nota zero

A política real não perdoa o amadorismo, especialmente quando ele vem fantasiado de homenagem. O desfile da Acadêmicos de Niterói, ao transformar a trajetória de Lula em enredo, foi um desses momentos em que a falta de visão estratégica atropela a conveniência do momento. O governo pode até alegar que não foi o indutor da ideia, mas ao não medir as consequências de uma exaltação personalista em pleno ano eleitoral, aceitou correr o risco e, para quem governa com 54% de reprovação e precisa de cada voto indeciso para chegar ao 50% + 1, permitir que sua imagem seja usada como alegoria de Carnaval é pedir para ser julgado antes da hora.

Na Avenida da política, o quesito enredo foi um desastre. Insistir em uma narrativa que conversa apenas com os convertidos é ignorar que a eleição se ganha no território do adversário. Ao flertar com críticas a setores conservadores e evangélicos, o desfile entregou munição de graça para a oposição, que nem precisou se esforçar para pintar o governo como alguém que usa a fé alheia como adereço. A fantasia de “pacificação” caiu logo no primeiro recuo de bateria. O que se viu foi o uso da máquina e da visibilidade pública para alimentar o próprio ego, enquanto o eleitor médio, aquele que decide o jogo, assistia a tudo com a distância de quem não foi convidado para o bloco.

A evolução da escola na pista refletiu a paralisia do governo nas pesquisas: um movimento que não sai do lugar porque se recusa a mudar o passo. O mestre-sala e a porta-bandeira, que deveriam compor o pavilhão do diálogo amplo, parecem perdidos em uma batida que só faz sentido para a própria arquibancada. Não houve harmonia porque não houve sintonia com o sentimento das ruas. O brasileiro que luta com o custo de vida não quer ver o presidente-carro-alegórico; ele quer ver resultados que caibam no bolso.

O desfecho, com o rebaixamento da escola para o grupo de acesso, foi a nota triste que coroou o enredo do erro. Na apuração da realidade, o governo ficou sem o troféu e com o prejuízo de imagem. Na política, como no Carnaval, quando o samba atravessa e a harmonia é nota zero, a punição vem no rigor do regulamento. O problema é que, para o político que samba em cima de setores hostis, o rebaixamento não acontece na Sapucaí, mas na contagem final dos votos. No fim das contas, a Acadêmicos de Niterói apenas provou que, quando se governa de costas para os indecisos, o destino final é sempre a dispersão.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Bom Dia Jundiaí.

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