A cartada Ellen

Gustavo Martinelli raramente age sem ter o próximo lance amarrado. Quem acompanha a política de Jundiaí com atenção sabe disso. Em 2020, nos últimos suspiros do PSDB, Gustavo não quis enfrentar a disputa por uma cadeira na Assembleia. A chance de se eleger era baixa, o partido mostrava sinais claros de esgotamento e amarrar o nome a uma legenda em queda seria trocar um projeto maior por uma derrota anunciada.

Também pensou adiante quando deixou velado o rompimento com Luiz, cumpriu o mandato de vice até o fim, administrou o distanciamento em silêncio e saiu sem carregar o ônus público de uma ruptura, deixando a tarefa para o então prefeito, que além de justificar a escolha por Parimoschi, ainda precisava trabalhar para alavancar os 3% de conhecimento do escolhido.

Gustavo, quando disputou a prefeitura, estava limpo de qualquer constrangimento que o amarrasse ao passado. A pré-candidatura de Ellen Martinelli à deputada federal carrega esse mesmo traço: uma decisão que parece simples na superfície e revela, nos bastidores, uma arquitetura política complexa.

Ellen construiu, ao longo da campanha de 2024, uma presença que chamou atenção. Campanhas municipais costumam relegar a figura do cônjuge a aparições protocolares e sorrisos de palanque. Ela fez diferente. Arregaçou as mangas, percorreu bairros, conduziu conversas que estavam fora do roteiro da comunicação oficial. A eloquência veio acompanhada de trabalho, e o eleitorado percebeu. O resultado das urnas carregou também o peso daquele esforço.

A pré-candidatura de agora surge sobre essa base. O capital foi construído com trabalho, e isso importa quando o assunto é viabilidade eleitoral. O que torna a jogada sofisticada vai além do nome e da exposição acumulada, seja na campanha ou no trabalho à frente do Fundo de Solidariedade.

Com Ellen na disputa, o governo ocupa um espaço que ficaria à deriva entre apoios cruzados e lealdades convenientes. A base governista passa a ter uma candidatura de referência, uma candidatura de governo, sem que isso colida com os acordos já firmados para o legislativo estadual. Edicarlos, presidente da Câmara Municipal, tem o caminho aberto para disputar uma vaga na Assembleia, como queria, e conforme o acordo desenhado na composição da mesa diretora. O tabuleiro se expande sem se contradizer.

O movimento mais importante é o de contenção a Luiz Fernando, trabalhando para impor a terceira derrota eleitoral seguida, e talvez a mais dolorosa. A trajetória recente já criou um horizonte difícil: a derrota do próprio irmão em 2022 e a sucessão frustrada do Paço Municipal em 2024. A chegada de Ellen ao páreo aperta esse horizonte. Uma candidatura com enraizamento municipal, respaldo institucional e a estrutura de governo tem tudo para atrapalhar a busca pelo tipo de voto que Luiz Fernando precisaria reunir para se viabilizar na cidade. O caminho, que já era difícil, tende a ficar mais estreito ainda.

Mais um efeito do lançamento da candidatura da primeira-dama é medir a força real do grupo político que comanda Jundiaí fora do ambiente controlado de uma eleição municipal. Disputar uma eleição federal exige construção de voto em lógica diferente, e o resultado servirá de régua para o que vem a seguir, tanto para ela quanto para o projeto do prefeito nos ciclos eleitorais futuros.

A política de bastidor opera exatamente assim. Uma decisão anunciada como candidatura carrega dentro de si movimentos que modificam trajetórias, travam avanços e testam estruturas. Quem joga no tabuleiro sabe que cada peça movida tem função além do que aparenta, e que as consequências mais relevantes raramente vão aparecer em um comunicado oficial.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Bom Dia Jundiaí.

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