Quem corta a fita nem sempre corta a grama

Inaugurar é fácil. Tem data, tem palco, tem foto. Manter o que se inaugurou acontece longe da câmera, custa caro e se arrasta por anos sem render uma única curtida. Entre um gesto e outro mora boa parte da história dos espaços públicos espalhados pelo país, e o estudo de concessão que a Prefeitura agora examina é, no fundo, a fatura desse desencontro administrativo entre entregar a obra e zelar por ela.

Cada espaço da cidade pede um cuidado diferente, um tipo de braço, uma linha de orçamento que nem sempre o contrato de zeladoria urbana consegue atender da maneira que o cidadão merece. Nossa cidade ficou marcada por entregar essas obras e nem sempre conseguir zelar por todas ao mesmo tempo, uma fatura cara que o orçamento público quer e precisa aprender a dividir.

Convém lembrar que a grama cresce sob qualquer prefeito. O banheiro entope, a lâmpada apaga, o piso cede, tudo no seu próprio cronograma, indiferente a sigla e a mandato. Quando o número de espaços sobe mais rápido que a estrutura capaz de mantê-los, a defasagem aparece e fica. É armadilha de gestão, não falha de governo específico.

A concessão responde a essa pergunta com o valor que costuma passar batido. Quem assumir não vai só cortar grama. Vai poder explorar o lugar artisticamente, programar evento que lota agenda, montar o lazer que se paga, servir a comida típica seja numa área verde bem cuidada ou num pátio ferroviário que, além de espaçoso, resgata a história da cidade. Em resumo, vai fazer com o Expressa aquilo que o orçamento da secretaria de cultura pretendia e não consegue entregar ao pulso de uma cidade que clama por uma cena cultural e gastronômica à sua altura. O privado entra onde o dinheiro público recuou.

Medellín deu a lição que mais interessa por aqui. A cidade colombiana saiu do fundo do poço criando uma estrutura própria para cuidar de seus parques e equipamentos, com uma regra de ouro: os espaços pertencem à cidade, não ao governo ou contrato da ocasião. Troca-se o governo, a zeladoria continua. É esse o ponto que separa um bom contrato de uma roubada: o que o concessionário pode explorar, o que fica intocável, e a garantia de que o lugar segue sendo de quem mora aqui.

A fita desses espaços já foi cortada faz tempo. O que falta agora é quem pegue a tesoura de poda. Enquanto o estudo vai e volta para revisão, a grama do Parque do Engordadouro segue crescendo sobre os problemas estruturais que vieram de brinde numa contrapartida, e o Expressa, que já guardou carro alegórico esquecido depois do Carnaval e hoje ensaia uma vida cultural, segue esperando alguém que faça dele tudo o que ele pode ser.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Bom Dia Jundiaí.

Publicidade

Continue lendo