Windbanners: mudam as regras, fica a inconveniência

O morador percebeu antes de qualquer comunicado oficial. O trajeto de casa para o trabalho amanheceu diferente, com mastros brotando de rotatória, de canteiro, de esquina, cada um balançando ao vento um sorriso ensaiado e um número de urna. A paisagem nova tem nome importado, windbanner, e uma história que explica muito sobre como se legisla eleição no Brasil. Houve um tempo em que campanha era carro de som varando os bairros, jingle repetido até a exaustão, sábado de manhã tomado por alto-falante em cima de Kombi. A lei apertou, o barulho diminuiu, e a criatividade das campanhas migrou do ouvido para o olho.

O windbanner nem existe na lei. Ele entrou pela brecha da bandeira, aquela peça que a norma autoriza em via pública desde que seja móvel e respeite a passagem de gente e de carro. A mobilidade, no papel, se resolve com um ritual quase religioso: a peça sobe às seis da manhã e desce à noite. Na prática, a cidade amanhece forrada e anoitece forrada, e quem dirige pelos cruzamentos mais disputados enxerga menos a sinalização e mais o rosto de quem pede voto. Rotatória virou vitrine, canteiro virou palanque, e a faixa de pedestre disputa espaço com a logística partidária.

Porque existe uma guerra silenciosa por trás de cada mastro. Equipes saem de madrugada para garantir o ponto nobre, o cruzamento de maior fluxo, a esquina que rende mais olhos. Chegou depois, ficou com a sobra. Em Jundiaí, a plantação de mastros virou régua de força política desde o último ciclo eleitoral: quem forra mais a cidade sinaliza estrutura, caixa e campanha mobilizada. A peça fala menos com o eleitor e mais com o adversário. É demonstração de força política travestida de propaganda.

O detalhe cômico dessa história é a plateia. A campanha dura 45 dias e a classe política vive cada um deles como véspera de Copa do Mundo, com direito a contagem regressiva nas redes sociais para anunciar o número na urna, foto de santinho saindo da gráfica e vídeo emocionado do primeiro dia de rua. Do outro lado do balcão, o eleitor segue a vida. Trabalha, paga boleto, leva filho na escola e atravessa o mar de mastros sem decorar um único número. O interesse pelo processo eleitoral mora quase todo dentro do próprio processo. A cidade real assiste de longe, com a paciência de quem espera a chuva passar e a sujeira sumir.

O ciclo se repete: sai o carro de som que incomodava o ouvido, entra o windbanner que incomoda mais do que traz resultado. A cada eleição o incômodo troca de sentido, de formato e de esquina. A inconveniência permanece, pontual como o calendário eleitoral. E o eleitor, esse personagem que todos dizem ouvir, segue sendo o único que ninguém consultou sobre a decoração da cidade.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Bom Dia Jundiaí.

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