Após chamar Lula de “podre”, Datena vira candidato na chapa do presidente e aposta na “cadeirada”

O apresentador José Luiz Datena decidiu encerrar o contrato com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo nas eleições de 2026, em articulação com o PSB, partido da base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A movimentação marca uma guinada na trajetória do jornalista, que passou de críticas públicas ao petista a integrante da chapa governista, e chega embalada pela escolha da palavra “cadeirada” como slogan central de sua campanha.

A decisão de deixar a EBC foi comunicada à direção da estatal no início de junho, em cumprimento à legislação eleitoral, que proíbe programas apresentados por pré?candidatos a partir de 30 de junho. Contratado no começo do ano para comandar um programa semanal na TV Brasil e uma atração diária na Rádio Nacional, Datena permanecerá no ar até o fim do mês, quando se desliga definitivamente para poder se dedicar à campanha.

Nos bastidores, o PSB trabalha com o mote “federal ou nada” e trata Datena como uma de suas principais apostas para puxar votos em São Paulo, explorando sua imagem ligada à cobertura de segurança pública. O ex?ministro Márcio França e o vice?presidente Geraldo Alckmin são apontados como os principais articuladores do convite, e a sigla projeta que o apresentador possa atingir cerca de 1 milhão de votos na disputa pela Câmara dos Deputados.

A aproximação com Lula e com a base governista contrasta com o histórico de declarações do próprio Datena. Em 2021, em meio às especulações sobre sua entrada na corrida presidencial, ele afirmou em seu programa que a política estava “podre” por causa de pessoas como o ex?presidente, em reação a uma fala de Lula que o colocava, ao lado de outros comunicadores, como parte de um “Enem” da política. Ao longo dos últimos anos, o apresentador também se dizia independente, crítico tanto ao PT quanto ao bolsonarismo, e transitou por diferentes legendas até se fixar no PSB.

O episódio que agora se transforma em bandeira de campanha ocorreu em 15 de setembro de 2024, durante debate da TV Cultura entre candidatos à Prefeitura de São Paulo. Na ocasião, após ser provocado pelo coach Pablo Marçal, que o chamara de “arregão” e mencionara uma denúncia de assédio posteriormente arquivada, Datena deixou o púlpito, ergueu uma cadeira de metal e acertou o adversário, em cena que interrompeu a transmissão e ganhou repercussão nacional.

Quase dois anos depois, o termo “cadeirada” foi incorporado ao marketing da pré?campanha. Aliados relatam que a equipe decidiu adotar a palavra em sentido figurado, com slogans como “cadeirada na corrupção”, “cadeirada no entreguismo” e “cadeirada nos privilégios”, em tentativa de ressignificar o gesto como símbolo de enfrentamento às práticas que o candidato promete combater na política. Datena afirma a interlocutores que não se orgulha da agressão e que é contrário à violência, mas avalia que o episódio, amplamente conhecido pelo público, pode ser transformado em metáfora para sua postura combativa.

Em convenções e eventos internos do PSB, o clima tem sido de ironia e aposta na força do símbolo: militantes já entoaram gritos de “cadeirada” enquanto o apresentador ergue cadeiras no palco, em atos que buscam fixar a imagem do candidato como alguém disposto a “bater de frente” com corrupção e privilégios. A narrativa será testada nas urnas em 2026, quando Datena, agora alinhado à chapa governista de Lula, tentará converter audiência e polêmica em capital eleitoral numa disputa em que o PSB espera consolidar uma bancada robusta na Câmara.

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