A dosimetria nasceu para medir penas, calibrar excessos e ajustar o peso do Estado sobre o indivíduo. No Congresso, porém, ela virou outra coisa. Tornou-se um teste de fidelidade, cálculo de risco e, sobretudo, um instrumento para revelar quem ainda joga com o governo e quem já resolveu jogar contra.
A votação do veto à chamada PL da Dosimetria não é um episódio isolado nem um debate jurídico sofisticado. É uma fotografia política. Para derrubar o veto, basta maioria simples do Parlamento, o que, longe de simplificar o cenário, o torna ainda mais revelador. Não se trata de consenso qualificado, mas de escolha clara. Quem vota, assume posição. E é justamente aí que o jogo muda de nível.
O bolsonarismo já tem candidato, identidade e narrativa. Seus parlamentares votam sem olhar para o retrovisor, porque não dependem dele. Estão em campanha permanente e falam para uma base que não cobra resultados administrativos, apenas alinhamento ideológico. Para esse campo, votar contra o governo é ativo eleitoral, não passivo político.
O problema começa para quem não habita esse campo. A maioria do Congresso é formada por deputados de reduto, com base pulverizada, dependentes de emendas, entregas concretas e alianças locais bem amarradas. São mandatos que sobrevivem menos de discurso e mais de obra, recurso empenhado e presença territorial. Nesse universo, cada gesto em Brasília produz efeitos muito além do plenário.
O governo não vive um momento de unanimidade nem de aprovação confortável. Ainda assim, o cenário nacional lhe oferece sustentação. A oposição fora do bolsonarismo não conseguiu se organizar, o centro não construiu um nome viável e o tabuleiro segue mais por inércia do que por entusiasmo. Não é força plena, mas é vantagem relativa.
Diante disso, votar contra o governo deixa de ser apenas uma posição política e passa a ser uma aposta de risco elevado. Para quem depende da articulação institucional e da formação de chapas competitivas, o gesto pode soar menos como independência e mais como isolamento. E isolamento, em ano pré-eleitoral, costuma cobrar seu preço.
A votação do veto, portanto, não decide apenas o destino de uma lei. Ela antecipa escolhas, expõe apostas e obriga parlamentares a se posicionarem antes do tempo ideal. Revela quem já aceitou o confronto como estratégia e quem prefere continuar operando no campo onde mandato se sustenta com entrega, não com retórica.
No fim, a dosimetria que realmente importa não se resolve nos autos. Está no cálculo eleitoral. E esse, ao contrário do discurso, não admite improviso.
