A coragem de um governante manifesta-se no exato instante em que ele decide expor as engrenagens de um sistema desenhado para privilegiar o lucro imobiliário acima do bem-estar coletivo. É necessário reconhecer que o crescimento de Jundiaí atingiu um patamar de saturação onde cada novo alvará de construção carrega o peso de uma responsabilidade social muitas vezes negligenciada. Administrar exige encarar a realidade de empreendimentos que sobrecarregam o solo urbano, sufocando o planejamento estratégico que a população espera e merece de seus representantes.
As chamadas contrapartidas financeiras tornaram-se, ao longo de décadas, meros pedágios burocráticos que ignoram a necessidade real de mobilidade e infraestrutura. É um escárnio aceitar reformas de praças ou pinturas de guias como compensação pelo fluxo populacional que estrangula as vias públicas há tantos anos. A mobilidade urbana demanda soluções estruturais, viadutos, alargamentos e inteligência logística, o que vem sendo sistematicamente ignorados por aqueles que enxergam o mapa da cidade apenas como uma planilha de lucros.
O rompimento com velhas estruturas familiares ligadas diretamente ao setor da construção civil representa um marco de independência ética para o município. É o fim de uma era onde o interesse privado ditava o ritmo do asfalto e a direção das adutoras. Priorizar o saneamento básico e o acesso à saúde dos bairros ao invés de subsidiar indiretamente a expansão de alto padrão, é uma escolha política necessária. O ônus da expansão deve recair integralmente sobre quem lucra com ela.
A cidade do futuro, como outrora era chamada em slogan eleitoral, exige contrapartidas à altura, proporcionais ao impacto gerado no cotidiano das famílias que escolheram Jundiaí como morada definitiva, priorizando a vida real sobre o mero valor de revenda. O planejamento urbano deve retornar às mãos do interesse público, retirando das grandes corporações o controle absoluto sobre o destino das ruas e avenidas.
A ferida está exposta; resta agora encarar a limpeza necessária para que o coletivo prevaleça sobre as heranças de concreto e os privilégios de berço.
