Toda base tem uma função. Distribuir peso, absorver impacto, evitar que a estrutura trema quando o vento muda de direção. É por isso que o termo “base de sustentação” aparece tanto no vocabulário de quem governa. O termo carrega uma promessa implícita, a de que existe um arranjo capaz de aguentar o que vem de cima sem rachar por dentro.
Na sessão de ontem essa premissa foi testada e o descompasso entre quem decreta e quem faz política foi evidente.
A base tentou em caráter emergencial participar ativamente da discussão que assola a cidade nos últimos dias, o crescimento desordenado e a narrativa, agora política, do impacto dos empreendimentos. O decreto já havia sido anunciado, justificado, embrulhado no vocabulário de sempre sobre planejamento e responsabilidade. O caminho que ele percorreu até a publicação, na visão de muitos, foi o que separa um aliado informado de um aliado surpreendido.
Os vereadores da própria base mostraram que querem ser parte, que não querem mais o lugar incômodo e conhecido, o de quem sustenta decisões que não ajudou a desenhar. Uma base que funciona bem não apenas vota a favor, ela é consultada antes de se decidir. Quando esse passo desaparece, resta a obrigação de defender em praça pública aquilo que não ajudou a construir.
Há uma ironia espessa nisso tudo. Quem ocupa hoje a cadeira de onde partiu o decreto já sentou, em outra época, nas cadeiras de quem hoje foi atropelado. Ninguém mais do que alguém que já foi vereador sabe o que significa defender uma matéria sem ter sido ouvido sobre ela. Sabe também o custo político de carregar essa ausência diante do eleitor que mora ou vai morar nos empreendimentos que ainda sobem pela cidade.
A pressa de ontem soa como um desvio de manual. A discussão sobre o ritmo de crescimento da cidade é legítima e a essa altura inevitável. Decisões dessa magnitude exigem um rito anterior ao anúncio, um espaço onde a base possa opinar antes de ser convocada a aplaudir. Sem esse rito, a sustentação vira fachada e o descompasso entre discursos na rede social e o apertar o “sim” no plenário ficam evidentes, descendo da presidência até a liderança do governo.
Não há base que sustente o descompasso entre quem decide e quem precisa explicar a decisão na rua. Em algum momento esse fio se rompe, e quando rompe raramente é em silêncio.


