A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, passou a exigir que todas as empresas incluam, no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a identificação, avaliação e controle dos riscos psicossociais ligados ao trabalho, como estresse crônico, assédio, sobrecarga e burnout. As mudanças, consolidadas pela Portaria MTE nº 1.419/2024, entram em vigor com fiscalização plena a partir de maio de 2026, e valem para organizações de todos os portes que atuam sob a CLT, inclusive órgãos públicos.
Na prática, isso significa que fatores antes vistos como “intangíveis” — pressão excessiva por metas, jornadas prolongadas, falta de autonomia, conflitos, ambientes tóxicos, hiperconexão e assédio — passam a ter de ser mapeados e tratados com o mesmo rigor dado a riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. O descumprimento da norma pode gerar autuações, multas administrativas e impacto em eventuais ações trabalhistas, caso fique comprovada omissão do empregador na prevenção de adoecimento mental relacionado ao trabalho.
Nesse contexto, a CEO da DVZ Consultoria, Sameila Brandão, chama atenção para um ponto muitas vezes invisível na discussão: a saúde mental de empresários e líderes. Segundo ela, o debate costuma focar nos colaboradores — o que é necessário —, mas ignora que quem empreende ou dirige equipes também enfrenta sobrecarga emocional intensa, lidando simultaneamente com fluxo de caixa, folha de pagamento, metas, burocracia, mudanças regulatórias e responsabilidade sobre empregos.

Sameila destaca que existe uma expectativa cultural de que o empresário esteja sempre forte, disponível e “blindado” emocionalmente, quando, na realidade, ele também pode adoecer, sofrer com ansiedade, insônia, sensação de esgotamento e perda de sentido em relação ao próprio negócio. Para ela, incorporar os riscos psicossociais à gestão não é só cumprir uma exigência legal, mas reconhecer a vulnerabilidade humana de todos os envolvidos — do estagiário ao dono da empresa — e construir ambientes onde pedir ajuda não seja visto como fraqueza.
A especialista reforça que o impacto do adoecimento de lideranças não fica restrito à esfera individual: um gestor exausto tende a se comunicar pior, tomar decisões mais impulsivas, tolerar ou reproduzir comportamentos abusivos e contaminar o clima organizacional. Por isso, ela defende que planos de prevenção previstos na NR-1 incluam ações específicas para líderes e empresários, como espaços de escuta, revisão de metas e carga de trabalho, incentivo à desconexão fora do expediente e acesso estruturado a apoio psicológico especializado.
A nova NR-1, ao tornar obrigatória a gestão de riscos psicossociais, reforça a ideia de que saúde mental no trabalho é responsabilidade compartilhada: do empregador, que precisa organizar o trabalho de forma saudável; das lideranças, que dão o tom da cultura; e dos trabalhadores, que também precisam reconhecer limites e buscar apoio quando necessário. Como resume a própria Sameila, empresas saudáveis são feitas por pessoas saudáveis — e isso inclui, necessariamente, quem assina o contrato social e não só quem assina a carteira.

