A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou que o El Niño 2026 está estabelecido no Pacífico Equatorial e trabalha com 63% de probabilidade de que o aquecimento das águas atinja patamar de evento “muito forte”, o que muitos analistas chamam de “super El Niño”. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também aponta que, para 2026, a chance de condições de El Niño dominar o restante do ano é de 80% a 90%, com expectativa de, no mínimo, intensidade moderada e possibilidade de cenário forte.
Do ponto de vista físico, o El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial centro?leste, que reorganiza a circulação atmosférica e desloca os padrões de chuva e temperatura em escala global. Em episódios extremos como 1982?83, 1997?98 e 2015?16, quando a anomalia de temperatura supera de forma persistente cerca de 2 °C, o fenômeno costuma ser classificado informalmente como “super”, dada a magnitude dos impactos em agricultura, energia, segurança hídrica e alimentar.
Para o Brasil, os modelos climáticos indicam um padrão conhecido: tendência de chuvas muito acima da média e risco elevado de enchentes e deslizamentos na Região Sul, ao mesmo tempo em que o Norte e o Nordeste enfrentam redução acentuada de precipitações, secas mais prolongadas e temperaturas acima da média. No Centro?Oeste e no Sudeste, o efeito costuma ser de chuvas irregulares, alternando períodos de excesso e falta, com possível atraso no plantio em algumas janelas e mais ondas de calor, o que aumenta a incerteza para o planejamento agrícola.
Esses desequilíbrios climáticos afetam diretamente a produção agropecuária. No Sul, o excesso de chuva pode encharcar o solo, atrasar plantio e colheita, favorecer doenças fúngicas e prejudicar culturas como trigo, café em áreas mais frias e parte da cana e do milho. Já nas áreas mais secas do Norte/Nordeste, a estiagem compromete lavouras como milho, feijão e mandioca, além de pastagens para pecuária, elevando custos com irrigação e suplementação de ração.
Quando a safra quebra em vários polos produtores ao mesmo tempo, abre?se espaço para encarecimento de alimentos. Projeções para este ciclo indicam que um El Niño forte pode pressionar tanto a oferta interna quanto os preços internacionais de grãos, carnes, açúcar e outros itens básicos, o que tende a se refletir na inflação de alimentos ao longo de 2026 e 2027. Estudos de mercado estimam que, em cenários extremos, apenas o choque climático sobre alimentos pode adicionar frações relevantes de ponto percentual ao IPCA, exigindo atenção maior da política monetária.
A boa notícia é que El Niño não é um “acidente súbito”: ele é monitorável meses antes pelo acompanhamento da temperatura do mar, dos ventos e da pressão atmosférica, como fazem NOAA e OMM. Isso permite que governos e produtores se antecipem com medidas como ajuste de calendário de plantio, reforço de estoques, crédito e seguro rural adaptados ao risco climático, obras de drenagem e planos de contingência para enchentes e secas, reduzindo parte dos danos socioeconômicos que um eventual “super El Niño” poderia causar.

