Selecionar, cortar, soldar, moldar, pintar, criar e vender: essa é a rotina de quase três décadas do artesão jundiaiense Claudinei Roberto Nanzi, de 69 anos, que transformou garrafas PET em matéria-prima para arte nos fundos de casa. Em suas mãos, recipientes plásticos de dois litros ganham nova vida em forma de personagens como Sancho Pança e Dom Quixote, animais, folhas, flores e imagens religiosas como São Francisco de Assis, tudo produzido com paciência, técnica e paixão a partir de um material que levaria séculos para se decompor.?
Hoje, a venda das peças complementa a renda de Claudinei, mas o objetivo dele é que o artesanato se torne, em breve, sua principal fonte de sustento. Para isso, ele defende que o artesão contemporâneo precisa ir além do talento manual e aprender a empreender, enxergando o recém-lançado Programa Empreendedor Artesão como um verdadeiro divisor de águas para o segmento no Estado de São Paulo.?
Claudinei trabalhou por 40 anos no comércio de madeira e testemunhou de perto a devastação ambiental, chegando a ver tratores com correntes derrubando grandes áreas de floresta e matando animais no processo, o que lhe trouxe culpa por participar dessa cadeia. Ao se aposentar, decidiu “devolver algo” à sociedade e à natureza e, ao ver o Rio Jundiaí tomado por garrafas PET, passou a recolher o material para transformá-lo em plantas aquáticas, esculturas e peças decorativas, apostando na metalização das garrafas para provocar reflexão sobre consumo e descarte.?
Segundo ele, o artesão não pode ser visto apenas pela “arte romântica”, mas como empreendedor que precisa de apoio para crescer, e justamente por isso o Empreendedor Artesão simboliza uma ruptura no relacionamento entre Estado e categoria. Claudinei lembra que os artesãos foram ouvidos na construção do programa e se diz confiante de que muitas mudanças já começaram e ainda virão, especialmente na valorização do artesanato sustentável.?
Voltado a fortalecer o artesanato paulista como atividade econômica e cultural, o Programa Empreendedor Artesão, criado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo (SDE), incentiva o empreendedorismo entre artesãos de todos os segmentos e regiões. A iniciativa oferece reconhecimento, fomento, qualificação, acesso ao mercado e oportunidades de renda, integrando o setor à economia criativa e ao desenvolvimento regional.?
O programa foi estruturado para responder às principais demandas da categoria, organizando sua atuação em pilares considerados essenciais. Entre eles estão a formalização, com emissão da Carteira do Artesão em âmbito estadual e nacional, orientação para abertura de negócios como MEI, cooperativas e associações, além de atendimentos itinerantes em diversas cidades paulistas.?
Na frente de qualificação, o Empreendedor Artesão oferece cursos presenciais e online voltados à gestão, marketing, vendas e uso de ferramentas digitais, além de capacitação técnica em diferentes tipos de artesanato. Também há formação em inclusão digital, com foco em redes sociais, comércio eletrônico e meios de pagamento online, para que artesãos possam ampliar sua presença no mercado e profissionalizar sua comunicação com clientes.?
Outro eixo importante é o acesso ao crédito, com linhas de financiamento específicas para artesãos por meio do Banco do Povo Paulista e da Desenvolve SP, em condições facilitadas. A proposta é possibilitar investimentos em estrutura, equipamentos e modernização dos negócios, garantindo que a atividade artesanal possa crescer de forma sustentável e competitiva.?
Se a história de Claudinei evidencia o artesanato como ferramenta de transformação sustentável e econômica, a trajetória de Elizabeth Horta Corrêa, 74 anos, reforça o papel do setor como patrimônio cultural vivo. Há mais de duas décadas, ela se dedica à pesquisa e preservação da renda Nhanduti, técnica paraguaia ancestral em risco de desaparecer, que conheceu em 2004 durante um curso de artesanato em Atibaia, onde mora.?
Encantada com a delicadeza das peças, Elizabeth mergulhou em uma investigação profunda para descobrir a origem e os caminhos da renda Nhanduti. Diante da falta de referências e materiais no Brasil, passou anos reunindo literatura antiga, consultando arquivos estrangeiros, visitando museus, resgatando manuais de épocas passadas e viajando para países como Croácia, Paraguai e Espanha; o esforço resultou no reconhecimento, em 2024, como única mestra da técnica no país.?
Durante muito tempo, ela produziu peças para lojas e joalherias, mas a extrema complexidade da renda sempre limitou a escala de produção, já que um módulo de apenas oito centímetros pode levar de oito horas a vários dias para ser concluído. O trabalho minucioso, embora valorizado artisticamente, nem sempre acompanha o ritmo comercial, o que reforça a importância de políticas públicas específicas para garantir a continuidade de técnicas tão delicadas.?
Para Elizabeth, o Programa Empreendedor Artesão é a chance de conectar cultura, geração de renda e preservação de saberes ancestrais. Na avaliação da mestra, práticas como o Nhanduti só sobrevivem quando há vontade ou políticas públicas estruturadas, pois, além de assegurar emprego e renda, o programa permite que novas gerações tenham contato com técnicas tradicionais e reconheçam o artesanato como parte da própria identidade cultural.?
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, responsável pelo programa, atua com foco na reindustrialização, atração de investimentos e desenvolvimento regional, sempre mirando geração de emprego e renda. Entre suas frentes estão ações de capacitação profissional, programas de fomento ao empreendedorismo e linhas de microcrédito operadas pelo Banco do Povo, além da articulação com instituições vinculadas como InvestSP, Desenvolve SP e a Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp).
